terça-feira, 17 de abril de 2012

Montemor


Numa das escolas de Montemor-o-Novo, a falar das histórias do livro a alunos do primeiro ciclo.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Visita ao CIV

Em Abril passado, no Colégio Internacional de Vilamoura (CIV). Ver aqui.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Jornal «i»

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Uma entrevista de Diana Garrido, para o jornal «i» (suplemento «LiV», secção «Faz-se assim», edição de fim-de-semana, 11/12.06.11) – a propósito do livro «O Sorriso Enigmático do Javali». A entrevista pode ser lida aqui Junto com a entrevista foi publicado o primeiro parágrafo do livro. Este:
«Junto à vedação da Herdade do Convento, bem perto de onde poucos dias antes tinha retirado dos bicos do arame farpado o corpo de uma garça, o pequeno Tukie viu duas perdizes atravessarem a estrada de terra. Não lhe tomaram medo e entraram tranquilas na herdade, quase a tocarem o primeiro dos arames da vedação. Ele lembrava-se bem de que a garça tinha perdido a vida no terceiro, a pouco mais de meio metro de altura.»

terça-feira, 26 de abril de 2011

A pergunta mais estranha

Na Biblioteca Municipal Álvaro de Campos, em Tavira, no painel de encerramento do encontro «Palavra Ibérica 2011» (15 de Abril). Depois de ter falado do livro do pequeno Tukie, fizeram-me a pergunta mais estranha que ouvi sobre ele: alguém, no fundo da sala, queria saber como se poderia representar as 12 aventuras do livro num gráfico de barras. Estranha também foi a foto que tirei ao entrar na sala, com o telemóvel, toda tremida.


sexta-feira, 8 de abril de 2011

Em Vilamoura

Seis de Abril de 2011, Colégio Internacional de Vilamoura, que tem alunos de quarenta e duas nacionalidades. Conversa sobre o livro, na biblioteca, com alunos do 8º Ano e do Year 9 e ainda membros do Grupo de Jornalismo do colégio. Foi no âmbito de uma iniciativa denominada «A Magia das Palavras Contadas», coordenada por Dina Adão. Site do colégio aqui.

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terça-feira, 22 de março de 2011

Contar a história

A história que dá o título ao livro. Contei-a hoje na Biblioteca Municipal Almeida Faria, em Montemor-o-Novo, a alunos de duas turmas de uma das escolas da cidade, alunos de sete, oito, nove anos, leitores muitos deles das aventuras de um rato intelectual chamado Geronimo Stilton. Uma experiência, como sempre, fascinante.
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«Até que de repente esse sorriso desapareceu, o sorriso enigmático e silencioso, não porque o javali deixasse de sorrir, não, nada disso, apenas porque ele deu meia volta e desatou a correr pelo montado, em direcção à parte alta, onde o mato era maior e tinha zonas que até engoliam os sobreiros mais novos…»
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domingo, 17 de outubro de 2010

Palavras cruzadas

Palavras cruzadas a partir de «O Sorriso Enigmático do Javali», feitas por Paulo Freixinho.
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terça-feira, 10 de agosto de 2010

Histórias de uma criança espontânea, curiosa e feliz

Texto de Adriana Freire Nogueira, sobre o livro «O Sorriso Enigmático do Javali», publicado no jornal «Postal do Algarve» (suplemento «Cultura Sul», 05.08.2010, disponível aqui, página 13).
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No tempo em que os animais quase falavam
O mais recente livro de António Manuel Venda (Monchique, 1968), «O Sorriso Enigmático do Javali» (Quetzal, 2010), tem como subtítulo «Primeiras aventuras do pequeno Tukie» e conta as histórias deste menino, uma criança espontânea, curiosa e feliz.
Tukie é o único ser humano com nome atribuído nestes 12 contos (que não ultrapassam as 100 páginas). E esta opção faz sentido, pois as personagens principais são os animais: a gata Malhas, o gato Palonsiño ou a gineta Gina.
As histórias são variadas, com humor, tendo como fio condutor uma pequena família, alternando o narrador o ponto de vista: numa história vemos o mundo pelo olhar da criança (sabemos o que sabe, ignoramos o que ignora e aprendemos em conjunto); noutra, é uma objectiva de uma máquina fotográfica que nos reflecte um real alternativo; noutra ainda, é «o pai do pequeno Tukie» (como é nomeado) que nos recebe nas memórias da sua infância. Múltiplos olhares que nos envolvem e nos tornam participantes das narrativas.
António Manuel Venda (AMV) começa muitas vezes estes seus contos com frases sem os verbos expressos, numa escrita sincopada, de subentendidos e de cumplicidades, que nos cria expectativas e suspense, obrigando-nos a saborear a leitura, embalados pelo seu ritmo: «As limpezas. Mas não as limpezas, por exemplo, da casa» (p.45); «Viagens à noite. O pai do pequeno Tukie fazia muitas assim» (p. 53); «Uma correria. O dia todo numa correria. Foi o que o pai do pequeno Tukie contou quando estavam a caminho da praia» (p.63). Também usa com frequência a digressão, levando-nos para outras gentes, outros bichos, outras histórias, sem contudo nos fazer perder o fio à meada. E assim somos enriquecidos pelas vizinhas Pata Larga e Perdizinha (pp.11-12), sensibilizamo-nos com um dogue argentino entubado num veterinário (p.20) ou deixamo-nos fascinar pelas divagações sobre uma velha oliveira (p.46).
É um livro que fala de livros, numa clara vontade de realçar a importância que estes têm para melhor compreendermos o mundo: «voltou com um livro sobre animais da região. […] Folheou o livro e quando estava já nas páginas onde apareciam alguns gatos-bravos ouviu o pai dizer-lhe que era uma gineta. O pequeno Tukie procurou a página correspondente às ginetas e quando a encontrou percebeu como eram quase iguais, a da imagem do livro e a que estava escondida no alpendre» (p.28).
E se uns livros são úteis para adquirir conhecimento prático, outros estimulam a imaginação: «O pequeno Tukie lembrou-se de ver nos livros os canhões dos barcos dos piratas com umas bolas pretas ao lado. As balas dos canhões. E se os pássaros bombardeassem o monte com balas de canhão como as que usavam os piratas dos livros?» (p.41)
Porém, as referências não são sempre genéricas, pois há autores nomeados, quer porque servem a criação do imaginário («a menos que fosse, por exemplo, um gigante como os anões dos livros de uma escritora espanhola chamada Rosa Montero, anões como os desses livros só que ao contrário. Anões enormes, de tamanho gigante» - p.46), quer porque o mote é o mesmo, como o poema do brasileiro Manoel de Barros (pp.101-102), quer porque se encaixam nas recordações das personagens: «Lembrou-se de muitos anos antes, de ver nos livros de cowboys do Tex Willer os chapéus inutilizados… Muitas vezes acontecia, uma bala furava o chapéu, num tiroteio, a um dos companheiros do Tex Willer, que tinha o famoso nome de Kit Carson» (p.82).
Para os que gostam de saber o grau de autobiografia que se encontra nos livros, AMV satisfaz a curiosidade nas apresentações da obra, como aconteceu em Monchique, a 12 de Junho: mais do que a experiência que tem com o seu filho, o pequeno Tukie baseou-se na sua própria experiência de infância. Nós acreditamos, mas o autor não consegue deixar de ser também o pai do rapazinho, como se dois universos paralelos (na linha ficcional que tanto agrada a Tukie e ao pai – cf. «8. A borboleta do imperador Ming»), um do passado e outro do presente, se tivessem entrecruzado. Pois também não se confunde o autor com a personagem? Esta, um escritor, pensa, a propósito do calor que se fazia sentir: «O mesmo, ou quase o mesmo, lembrava-se, do calor da noite de fogo que tinha vivido uns anos antes, o incêndio na serra da sua infância, que tinha metido num pequeno romance.» (p. 85). Quem tem acompanhado a já extensa obra de AMV (que se iniciou, em 1996, com o fantástico «Quando o Presidente da República Visitou Monchique por Mera Curiosidade») reconhecerá a referência ao livro anterior, de 2009, «Uma Noite com o Fogo» (Quetzal).
É este, então, um livro para crianças? Tal como a mesma natureza é percebida por pai e filho de forma diferente, eu diria que é um livro para adultos que as crianças podem ler.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

A qualquer momento

Personagens de «O Vento nos Salgueiros». Falou-se delas durante a entrevista na «Antena 2», que ao ler-se «O Sorriso Enigmático do Javali» espera-se que possam aparecer a qualquer momento. Confesso que não tinha pensado nisso, mas admito que sim.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Entrevista «JL»

Entrevista de Francisca Cunha Rêgo, sobre o livro «O Sorriso Enigmático do Javali», publicada no «Jornal de Letras» (14.07.10).
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António Manuel Venda
O triunfo dos animais
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Há um javali que sorri junto a uma árvore. Uma garça presa no arame farpado. Um gato-bravo que ronda o monte, no meio do Alentejo. Um lagarto com a cauda em forma de clave de sol. Em cada capítulo um novo animal e mais uma aventura para o pequeno Tukie, o rapaz-herói de «O Sorriso Enigmático do Javali», de António Manuel Venda, 42 anos. «É um livro do meu mundo de hoje, mas também do meu mundo de criança, na serra algarvia», conta ao «JL», confessando ainda que sempre quis escrever um livro no qual os animais fossem personagens marcantes. O autor vive, com a família, num monte no Alentejo. O universo do montado e as experiências da vida no campo estão muito presentes nesta obra. Nascido em Monchique, em 1968, tem publicado livros como «O Medo Longe de Ti», «O Amor por entre os Dedos», «O que Entra nos Livros» ou «Uma Noite com o Fogo». É ainda autor do blogue «Floresta do Sul».
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É o sorriso enigmático do javali que está em destaque, mas todos os outros animais, de uma maneira ou de outra, fazem-nos sorrir. Como imaginou cada história?
As histórias têm sempre um ponto de partida real. O livro narra as aventuras do pequeno Tukie – em todas elas aparecem animais –, mas acaba por ser um livro do meu mundo. É verdade que um dia, ao chegar a casa, vi cinco javalis em correrias e que um deles ficou pelo caminho porque bateu numa árvore. Também houve uma gineta – um gato-bravo – a visitar o monte, e a história dela foi escrita quase colada à realidade.
Em «O Sorriso Enigmático do Javali» narra um universo que presumimos ser o seu. Até que ponto está a sua vida neste livro?
Por um lado, quem lê o livro fica a saber um pouco da minha vida; mas, por outro, não se trata de uma crónica. Claro que encontrar o equilíbrio é difícil. É um livro do meu mundo de agora, mas também do meu mundo de criança, na serra algarvia. Os animais que o miúdo vê, geralmente quando está com o pai, ou então com a mãe, são os que eu via em criança e em adolescente. Mas o que eu gostava mesmo era de ser eu próprio o pequeno Tukie. Não podendo ser, limito-me a ficar de fora, a olhar.
E quem é o pequeno Tukie? O seu filho mais velho? Uma espécie de Tom Sawyer?
Quando comecei a escrever o livro, o meu filho mais velho era um bebé. A primeira ideia era ver-me enquanto criança, com o meu pai a acompanhar-me. Não comecei, portanto, por colocar o meu filho, mas vendo estas histórias agora, depois de escritas, consigo imaginá-lo lá. Pode ver-se no pequeno Tukie uma espécie de Tom Sawyer, sim. Curiosamente, chegou-me há pouco tempo uma reedição desse livro, e na altura lembrei-me do Tukie. São mundos diferentes, embora de certa forma próximos.
Que história quis contar?
Eu sempre quis escrever um livro de animais. Não há muita gente que conheça os meus livros, mas quem os conhece encontra neles mais animais do que pessoas. Mesmo assim, eu pensava que nunca tinha conseguido escrever um livro desses. Até agora. Um dia, ao regressar a casa, encontrei morta numa vedação de arame farpado a garça da primeira aventura narrada no livro. Não consegui deixá-la lá. Eu estava muito cansado, mas parei e fiquei quase uma hora a tirá-la de lá. Foi complicado, ma naquele momento esqueci-me de todos os problemas. Pensei então que podia escrever o meu livro de animais a partir daquela situação. Depois tive muitas dificuldades, avanços, recuos, mas esse foi o ponto de partida. Imaginei que não era eu que estava a tirar a garça do arame, mas um miúdo. E que não era o meu carro que estava parado na berma da estrada, mas uma bicicleta. Aquele miúdo passou-me pelo lado de dentro dos olhos.
E por quê o nome Tukie?
Procurei um nome com uma sonoridade que me agradasse. Se o miúdo fosse o pequeno Joãozinho, ou o pequeno Zé, parece-me que não funcionava. Teria preferido pôr um nome português, mas não consegui. A verdade é que cometi uma gafe, porque no início o miúdo chamava-se Chuckie. Coloquei um excerto do livro no meu blogue e um amigo fartou-se de gozar comigo, lembrando-me que Chuckie era parecido ao nome de um boneco assassino de um filme norte-americano [o Chucky]. Não podia manter o nome, por isso mudei para Tukie, porque gostava da sonoridade. Salvaguardando as devidas distâncias, a Blimunda do Saramago tinha um nome horrível. Foi a mulher dele de então, Isabel da Nóbrega, quem lho trocou. Os livros têm de ter um bocadinho de sorte. Neste caso eu acho que tive.
Escreve que estas são as primeiras aventuras do pequeno Tukie. Podemos esperar mais?
Eu gostava de contar mais histórias como estas, mas isso só seria possível se o livro se tornasse muito conhecido, se tivesse muitos interessados. Tendo em conta a minha dimensão como escritor em Portugal, não é previsível que venha a fazer uma sequela.

domingo, 25 de julho de 2010

Antena 2

Luís Caetano, no programa «A Força das Coisas», da Antena 2, aqui.
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«‘O Sorriso Enigmático do Javali’, de António Manuel Venda – escritor discreto que aos quarenta e dois anos tem já um percurso sólido na literatura portuguesa –, tem tanto de bucólico como de lugar de animadas aventuras. Um mundo cada vez mais estranho para um número cada vez maior de pessoas, apesar de muitas terem memória da vida no campo. Um livro feito de experiência vivida. Uma família, a do pequeno Tukie, que vive no montado alentejano. Uma casa longe do alcatrão, de acesso difícil e por isso lugar de vida plena, de natureza e dos seres que a habitam. À porta de casa não passam carros, passam javalis, garças, ginetas, cobras e também lagartos que fazem música ou um javali de sorriso enigmático.»

quinta-feira, 22 de julho de 2010

O pequeno Tom

Uma das coisas que perguntaram na entrevista do «JL» sobre o livro «O Sorriso Enigmático do Javali»: «Quem é o pequeno Tukie? O seu filho mais velho? Uma espécie de Tom Sawyer?»

terça-feira, 13 de julho de 2010

A sexta personagem

É a sexta personagem de «O Sorriso Enigmático do Javali» que aparece aqui no blog: a borboleta do imperador Ming.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

RTP2

Inês Fonseca Santos, no programa «Diário Câmara Clara» (RTP2), aqui.
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«Foi há seis décadas que Miguel Torga publicou ‘Os Bichos’. Este ano, novos livros trazem novos bichos à literatura portuguesa. ‘O Porco de Erimanto’, de A. M. Pires Cabral, (…) e ‘O Sorriso Enigmático do Javali’, de António Manuel Venda, uma narrativa para partilhar e ler devagar. Para acompanhar em doze capítulos e doze animais as primeiras aventuras do pequeno Tukie. São feitas de espanto estas fábulas.»

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Outra personagem

Tinha de chegar a vez dele: o gato amarelo de nome espanhol.
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Um texto

No blog («Cartas a Si»), sobre «O Sorriso Enigmático do Javali» (29.06.10).
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Com o pequeno Tukie embrenho-me na serra e nas aventuras da minha infância.
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O meu mais recente «amigo de cabeceira». Com o pequeno Tukie embrenho-me na serra e nas aventuras da minha infância. As cobras, as perdizes, os javalis que passaram pelos meus longos dias de criança desfilam diante dos meus olhos como se ainda ali estivessem. Um pequeno tesouro, este pequeno livro.
Não é só o autor do livro que está de parabéns pelo texto e pela escolha do título, também Rui Rodrigues está de parabéns pela magnífica capa que nos transporta para o universo mágico do livro.
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terça-feira, 6 de julho de 2010

Na rádio e na televisão

Entrevista sobre «O Sorriso Enigmático do Javali», no programa «A Força das Coisas», de Luís Caetano (Antena 2) – aqui. Depoimento no programa «Diário Câmara Clara», de Inês Fonseca Santos e Luís Caetano (RTP2) – aqui.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Mais uma personagem

Desta vez, o lagarto da clave de sol.
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segunda-feira, 28 de junho de 2010

Um post de Adriana Freire Nogueira

No seu blog («A Senhora Sócrates»), sobre «O Sorriso Enigmático do Javali», que apresentou em Monchique.
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. … uma escrita antiga e por isso tão próxima da fantasia dos simples, que aceitam com naturalidade o que outros a civilização fez chamar diferente, estranho, estrangeiro.
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Dia de sorrisos
Apresentei em Monchique o livro de António Manuel Venda «O Sorriso Enigmático do Javali». Nesta fotografia, estamos todos deleitados a ouvir o secretário da Junta de Freguesia a ler a sua introdução, num estilo «vendiano».
Ora só o tempo permite que se crie um estilo. E por isso, por muito que insistam em chamar a António Manuel Venda um jovem escritor, ele não o é. É apenas um escritor jovem. E a juventude não se percebe apenas na timidez do olhar ou na inquietude das mãos que se movem com as palavras, quando fala, construindo castelos, casinhas ou outras arquitecturas, mas na escrita. Uma escrita antiga e por isso tão próxima da fantasia dos simples, que aceitam com naturalidade o que outros a civilização fez chamar diferente, estranho, estrangeiro.
Por isso o mundo visto pelos olhos – ou pela máquina fotográfica – do pequeno Tukie, ou do pai do pequeno Tukie, é um mundo em que o fantástico não existe como tal.
Por isso chamei a «O Sorriso Enigmático do Javali» um livro de felicidade.
Não uma felicidade que transborda ou ofusca o que está à volta, mas felicidade porque nos faz sentir que pertencemos, que não estamos sozinhos na nossa coexistência, pessoas e animais.
Felicidade, porque mesmo aquilo que pode ser mais triste ou violento (como a morte de uma garça num arame farpado) é vivido com simplicidade, sem drama.
Felicidade, porque ali não há sentimentos que ferem e magoam.
E apesar de conseguir muito bem construir o suspense, as histórias que ele nos conta acabam serenamente, com ternura e humor.
E quem me observou a ler o livro, terá visto claramente os meus sorrisos nada enigmáticos.

Mais uma personagem

Já cá faltava, o javali.
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sexta-feira, 25 de junho de 2010

Ainda a apresentação em Monchique

Nós, monchiquenses, podemos compreender Miguel Torga quando diz: «É o espírito da terra que eu defendo». Não apenas desta terra em que habitamos, feita de cristas, cabeços, barrancos, gargantas e valados polvilhados de «verde Monchique», mas também o espírito desta terra, pedaço de chão esponjoso de onde jorra o milagre misterioso da vida, onde também há «lugar para magia e assombramentos».
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Texto de Eduardo Duarte, secretário da Junta de Freguesia de Monchique, lido na apresentação do livro na minha terra (ver aqui).
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Por que é que os javalis sorriem?
Eu, Eduardo Duarte, um nome quase tão cacofónico e pleonástico como Geraldo Giraldes, morador no Bairro Alto de São Roque, não de Lisboa, mas de Monchique, terra onde, apesar de não lhes fazer fé na existência, há coisas que só se explicam por inusitados bruxedos talvez vindos ou da Corte da Pomba ou sabe-se lá de que brenhas, coisas essas capazes de nos pôr a rosnar incrédulos «renhaufes». Mas, dizia eu, me confesso, ter sido uma simples capa a prova lúcida e cristalina que fez transitar em julgado a sentença sobre o primeiro dos livros assinados pelo nosso talentoso conterrâneo.
E ainda que a minha, provavelmente assim por ele classificada, desenxabida opinião pouco valha ao escritor que hoje aqui homenageamos, foi, por mera curiosidade, ao reparar no nome Monchique no seu primeiro livro, que iniciei um caminho de aprendizagem sobre o que de tão especial entra nos livros de António Manuel Venda. A partir de então, e até ao dia que hoje conhece mais uma dessas lições, ficou-me guardado para sempre na memória as vezes em que foi a sua prosa que me saudava e afagava com o sopro carinhoso desta terra nos instantes silenciosos de dura saudade que sempre tolhem o cordão umbilical de um jovem estudante, longe da segurança das muralhas acolhedoras da Fóia e da Picota.
É, revendo-nos na escrita prodigiosa de António Manuel Venda, mas também de Manuel do Nascimento e António Silva Carriço, que nós, monchiquenses, podemos compreender Miguel Torga quando diz: «É o espírito da terra que eu defendo». Não apenas desta terra em que habitamos, feita de cristas, cabeços, barrancos, gargantas e valados polvilhados de «verde Monchique» (uma nova tonalidade de verde, a juntar aos por António Manuel Venda desconhecidos «verde tropa» e «verde folha»), mas também o espírito desta terra, pedaço de chão esponjoso de onde jorra o milagre misterioso da vida, onde também há «lugar para magia e assombramentos».
Nesta relação alteritária sem barreiras, entre seres tão humanos como nós, animais e elementos ctónicos, habilmente combinados em laboriosas prosas povoadas por enredos bizarros e personagens singulares, opera-se a transposição espontânea, de forma sublime, para uma dimensão metafísica, do sensível para o supersensível. Esta é a autenticidade que, segundo a concepção kantiana, define os génios. António Manuel Venda lá terá as suas influências literárias, as suas manias, as suas predilecções por palavras ou expressões. Porém, a lisura da sua escrita não segue quaisquer regras, uma vez que é ele mesmo que misteriosamente as fabrica através das escondidas e secretas estruturas da criação que o inundam.
As raízes e vivências monchiquenses terão, certamente, contribuído para a harmonização das suas faculdades enquanto escritor, para a disposição inata do espírito criativo que revela, e terá sido, também daqui, que lhe vieram grande parte das ideias e dos temas sobre as quais versa a sua obra. Não são muitas as localidades que se orgulham do momento que hoje aqui partilhamos. Numa terra onde as altas taxas de iliteracia têm sido um importante obstáculo à obtenção de uma população informada, participativa e pro-activa, que permita enfrentar os desafios que com cada vez maior impetuosidade se nos deparam, porque não fazer da obra dos nossos escritores um elemento cooptador de massa crítica, utilizando o saber patente nos seus livros como vantagem comparativa ao nível da promoção e do marketing territorial?
Agradecendo a supina honra que me foi concedida pela senhora presidente da Junta de Freguesia de Monchique em partilhar convosco estes instantes, termino dizendo que no dia em que António Manuel Venda lançou «O Sorriso Enigmático do Javali», na Bertrand do Chiado, e ainda antes de ter conhecimento do evento que hoje nos reúne, escrevi no meu blogue: «Se eu ainda morasse em Lisboa, já tinha planos para esta noite. E dava um agradecido abraço a um dos mais brilhantes escritores da minha terra. Que é, igualmente, um dos mais brilhantes escritores do meu país.
E, se pudesse também, dir-lhe-ia, nervoso e acanhado, o que aqui digo com orgulho e com o coração a crepitar: através das palavras e da singularidade matizada com que as conjuga em narrativas de encantar, obrigado por elevar o nome de Monchique. Obrigado por tão bem enobrecer a Língua Portuguesa.

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sábado, 19 de junho de 2010

Uma crítica

Se nada no mundo animal que constrói o enredo destas narrativas fica realmente explicado não é apenas porque o olhar da criança o não saiba explicar, é porque ele se constrói fora dos limites de uma explicação. Mas tal significa também conceder ao olhar da criança o privilégio de compreender sem procurar explicar.
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Texto de H. G. Cancela, professor da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (área científica de Estética), publicado no blog «Contra Mundum», aqui (16.06.2010)
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A natureza e a infância (como a doença ou a loucura) constituem dois pólos centrais de afirmação negativa da identidade da cultura e da razão. A racionalização do real (o transformar o mundo numa coisa explicada ou em vias de explicação) constitui uma peça central na visão de mundo herdada da modernidade. Num caso como noutro, está em causa a transformação da coisa em objecto cultural, seja através da manipulação do espaço natural ou da formulação de uma representação explicativa, seja através daquilo a que se chama crescer – entendendo o crescimento como a racionalização das representações de mundo. Talvez a contemporaneidade e alguma consciência ecológica permitam ou exijam uma reformulação desta relação.
O livro «O Sorriso Enigmático do Javali: Primeiras aventuras do pequeno Tukie» (Quetzal, 2010, 102 p.), de António Manuel Venda, propõe-nos perspectivar o mundo a partir dos olhos de uma criança. Não é um discurso na primeira pessoa, mas toda a narrativa assume um registo que privilegia a percepção do mundo do protagonista, o «pequeno Tukie». É um livro que se situa no que poderíamos designar por naturalismo mágico: os animais selvagens (ou apenas «naturais») que povoam o Alentejo surgem aqui como personagens de um conjunto de doze histórias, de um registo naturalista (supondo uma evidente experiência do autor) transfigurado pela atenção sensível e delicada do olhar da criança. O privilégio do olhar faz do protagonista quase sempre mais espectador do que agente – a sua acção é descobrir o mundo, um mundo que lhe é exterior mas do qual ele é parte:
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Distribuíram as ferramentas pelos dois, para o pequeno Tukie a enxada e o ancinho e para o pai o resto, e afastaram-se. Fizeram-no no exacto momento em que o corpo da cobra parava completamente, o mesmo exacto momento em que os três corvos deixaram o ramo da azinheira na direcção do estendal.
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A sensibilidade do olhar do protagonista é também a da escrita do autor. Uma escrita sensível, ao mesmo tempo objectiva e directa sem ser linear – períodos normalmente curtos e quase imediatos, mas articulados, compondo um texto sem muita densidade, mas eficaz. A conjugação do pretérito perfeito com o imperfeito permite conferir à narrativa quer uma objectividade assinalável, quer uma dimensão de fábula que faz deste um livro quase capaz de ser lido por uma criança: tal não significa uma menorização dos textos, mas a consciência de que a nitidez da escrita e a subtil efabulação admitem tal nível de leitura.
Estamos diante de um registo linguístico mais neutro do que nos primeiros livros do autor. Notam-se também menos os traços surrealizantes. Distintamente de ser entendido como uma possível perda de traços de «autoria», aquilo que resulta é uma escrita mais rica porque mais focada. Por vezes, é possível que uma revisão mais exigente tivesse evitado algumas cedências, como a excessiva coloquialidade de algumas formulações, etc. Prescindível seria também a oposição forçada entre a cidade e o campo (esta é ainda uma forma de prolongar uma lógica de exclusão que não faz justiça a nenhum dos termos), assim como algumas considerações delas decorrentes, as de ordem política, por exemplo.
Apesar da ameaça da dispersão inerente à divisão da estrutura do texto em doze histórias que se sucedem sem outro fio narrativo que não o da presença da criança, o livro resulta orgânico, servido por dispositivos narrativos tão simples quanto eficazes. Por exemplo, é muito conseguido o modo como os diferentes elementos da narrativa (contexto espacial, personagens, etc) vão sendo introduzidos de forma gradual – no primeiro episódio, apenas a criança e os animais, no segundo, o pai, depois a mãe e a bebé, etc.
Se nada no mundo animal que constrói o enredo destas narrativas fica realmente explicado não é apenas porque o olhar da criança o não saiba explicar, é porque ele se constrói fora dos limites de uma explicação. Mas tal significa também conceder ao olhar da criança o privilégio de compreender sem procurar explicar. Precisamente por isso, é pena que o livro não assuma o subtítulo («Primeiras aventuras do pequeno Tukie») como título. Seria talvez menos apelativo do ponto de vista comercial, mas mais forte na sua articulação com a narrativa.
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domingo, 13 de junho de 2010

Apresentação em Monchique

Apresentação na minha terra (Monchique, no Algarve), no Longevity Wellness Resort Monchique (Caldas de Monchique), na tarde de 12 de Junho de 2010. A organização foi da Junta de Freguesia de Monchique, tendo o livro sido apresentado por Adriana Freire Nogueira, professora da Universidade do Algarve. Na mesa, da esquerda para a direita, Ana Paula Gervásio (presidente da Junta de Freguesia de Monchique), Rui André (presidente da Câmara Municipal de Monchique), eu, Adriana Freire Nogueira e Eduardo Duarte (secretário da Junta de Freguesia de Monchique).
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Fotos: Patrícia Jaime
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quinta-feira, 10 de junho de 2010

Na minha terra

Apresentação na minha terra, Monchique. Sábado, 12 de Junho, pelas 16H30.
(clicar na imagem para aumentar)
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quarta-feira, 9 de junho de 2010

No «Expresso»

«O Sorriso Enigmático do Javali» é um livro que nos recorda a frase de Sagan, «somos filhos das estrelas», reconciliando-nos com uma natureza cada vez mais distante…
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Texto de Ana Cristina Leonardo, publicado no «Expresso» («Cartaz»), a 05.06.10. A autora disponibilizou o texto no seu blog («Meditação na Pastelaria»).
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Vagar é a palavra. É ela que nos ocorre ao percorrermos estas doze histórias de António Manuel Venda. Doze como os meses do ano, doze como as horas diurnas e doze como as horas nocturnas. E podia até ser um livro de horas, «O Sorriso Enigmático do Javali». Cada história uma iluminura, cada ilustração um desenho naturalista, em todas se insinuando – apenas se insinuando – elementos encantatórios. Nada de cobras aladas, águias guerreiras ou gatos embruxados. Ao mistério basta-lhe o mundo natural, ele próprio e por si próprio um enigma a requerer atenção.
Epifania que se desenrola sem alarde sob o olhar pasmado e interrogativo do pequeno Tukie, a criança que une as narrativas, símbolo de uma inocência que se deixa fascinar – e consigo nos fascina – pelas mutações inesperadas que tomam conta do seu universo: javalis que riem, águias que podiam ser bombas, gatos que ressuscitam, lebres que enganam tolos, texugos que parecem cães…
«O Sorriso Enigmático do Javali» é um livro que nos recorda a frase de Sagan, «somos filhos das estrelas», reconciliando-nos com uma natureza cada vez mais distante, mas que pulsa ainda na Herdade do Convento, onde Tukie tem a felicidade de poder viver com o pai, a mãe e uma irmã bebé.
Narrativa em redondo, na qual cada episódio se fecha num anti-clímax que dá lugar a outro, o mais recente livro de António Manuel Venda soube furtar-se com inteligência às fantasias de efeito fácil e às pedagogias de fácil efeito (um reparo: seriam dispensáveis as incursões políticas cujas mensagens, na minha opinião, apenas poluem o texto). O livro vai-se desenrolando como se nada acontecesse – a acção é sem efeitos especiais, com excepção, talvez, do deputado a quem faltava um bocado de cabeça – e, ainda assim, permite-nos descobrir um mundo febril e imprevisível que se agita sob a aparente calma. A escrita de António Manuel Venda acompanha-o sem alarde, usando-a o escritor com recato e parcimónia, sem nunca se pôr em bicos de pés, o que com certeza afugentaria os elementos que compõem o livro, a exigirem silêncio e discrição.
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quinta-feira, 3 de junho de 2010

O que eu disse..

O que eu disse na apresentação do livro em Lisboa (27.05.10, Livraria Bertrand do Chiado). Ou seja, as notas que escrevi um pouco antes de chegar à livraria, agora passadas a limpo.
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Se um dia eu fosse famoso e fizessem estudos sobre os meus livros, iriam descobrir que neles há mais animais do que pessoas.
Não me refiro a este «O Sorriso Enigmático do Javali», refiro-me aos livros anteriores.
Mesmo assim, apesar de esses livros terem vindo a aparecer, eu sempre quis escrever um livro com histórias de animais. Claro que, como em muitos outros projectos, não consegui.
Só que um dia, ia a regressar a casa, pelo montado, vi uma coisa um bocado macabra – uma garça morta numa vedação de arame farpado. Estive quase uma hora para conseguir tirá-la dos bicos do arame, que a prendiam pelo pescoço. Mesmo morta, eu não podia deixá-la lá.
Enquanto estive naquilo, senti uma enorme tranquilidade. Lembro-me de que estava preocupado com coisas do trabalho, o que tinha para fazer. Estava, como agora é moda dizer, em stress.
Com aquilo da garça no arame farpado, tudo passou. Esqueci-me mesmo das preocupações. Durante esse tempo, muito concentrado, sem perceber como vi um miúdo a fazer o que eu estava a fazer; e na estrada de terra não estava parado o meu carro, mas sim uma pequena bicicleta.
Vi-me um miúdo, e vi naquele momento as imagens da primeira aventura do livro. A da garça, que nem tem garça no título, mas um casal de perdizes.
Foi assim que nasceu este livro, o meu livro dos animais. Foi preciso eu ver um miúdo a libertar a garça morta do arame farpado, a fazer exactamente o que eu estava a fazer.
Na altura o meu filho era ainda pequenino. Era um bebé. Com o passar do tempo, já com o livro a ser terminado, e com muitos outros animais nas suas páginas – a gineta, a rela, o texugo, a cobra, a borboleta, o lagarto, entre outros – , acabei por ver também nessas páginas o pequeno Tukie, que andava pelo montado mais o pai. O meu filho. Eu e o meu filho.
Mas do que eu gostava mesmo era de eu próprio ser o pequeno Tukie. Fica o livro.

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Uma entrevista

Entrevista de Sandra Gonçalves para o «Diário Digital», publicada aqui.
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António Manuel Venda
Em busca de uma «mão invisível»

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António Manuel Venda, autor de «Uma Noite com o Fogo», tem um novo romance: «O Sorriso Enigmático do Javali», editado pela Quetzal. Um retrato do quotidiano de uma família que vive num montado alentejano e que tem como figura principal o filho Tukie. Em entrevista ao «Diário Digital», no dia do lançamento do livro [27 de Maio de 2010], o autor revela-nos o seu medo das alclaras – os escorpiões da Serra de Monchique –, cujas picadas deixam uma dor para 24 horas, e que tem em mãos um novo trabalho, mas que, para já, está a precisar de uma «mão invisível» para o concretizar.
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Ao longo da conversa, António Manuel Venda falou do livro, mas houve tempo ainda para um aparte sobre o seu clube do coração, o Sporting, e também do seu blog, o «Floresta do Sul». Sobre a má temporada do Sporting, o autor defende que «nada aconteceu» nesta época «que não se esperasse».
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O dia-a-dia que descreve em «O Sorriso Enigmático do Javali» é o seu?
No livro há bocadinhos do meu dia-a-dia, assim como há bocadinhos do dia-a-dia dos animais que nele entram. Eu socorri-me dos meus lugares para escrever as aventuras do pequeno Tukie e socorri-me também da minha memória, de episódios que nos últimos anos foram acontecendo comigo. Não escrevi nenhuma aventura que não partisse de um desses episódios, e nalguns até cheguei a tirar fotografias, embora sem saber que mais tarde haveria um livro. Por exemplo, tenho fotos de vários animais do livro, a rela, o ouriço-cacheiro, o lagarto, a borboleta...
As referências ao montado, o espaço, os javalis, as ginetas, os mochos e as lebres… São-lhe familiares, tendo em conta que vive no Alentejo?
São familiares por eu viver num montado do Alentejo onde existem todos esses animais, e também porque na infância e na adolescência eu vivia num ambiente parecido, no Algarve, na Serra de Monchique. Se um dia eu me tornasse famoso e desatassem a fazer estudos sobre os meus livros, iam descobrir que neles há mais animais do que pessoas.
Era uma criança curiosa? Revê-se no Tukie?
Eu era curioso, sim, talvez fosse como o pequeno Tukie, mas não se trata de uma questão de me rever nele. Eu gostava de ter passado por estas situações que estiveram na base do que escrevi mas sendo ainda uma criança, e não um adulto. Quando o pequeno Tukie vai mais o pai ver o javali a dormir depois de ter batido com a cabeça num sobreiro, eu gostava de ser o pequeno Tukie e não o pai. Sempre estive muito ligado aos animais desde muito pequeno, e o mesmo acontece com os meus filhos. Mas a ideia mais forte que tenho da minha infância e do contacto com os animais é a da preocupação com as alclaras – o nome por que são conhecidos os escorpiões na Serra de Monchique. Eu tinha sempre bem presente que a picada de uma delas deixava uma dor para vinte e quatro horas, tinha porque ouvia dizer isso, e conhecia muitas pessoas que já tinham sido picadas e que depois contavam das mezinhas para atenuar a dor, por exemplo conseguir apanhar o bicho, fritá-lo em azeite e fazer uma pasta para colocar sobre a picada. Como eu passava o tempo no campo e lá havia muitas alclaras, das amarelas e umas pretas mais pequenas, andava quase sempre de sobreaviso. Talvez por isso, já adulto, num dos romances que escrevi tenha passado capítulos e capítulos a falar das alclaras.
Percebe-se através deste livro que gosta muito de viver no Alentejo. Imagina-se a viver em Lisboa?
Eu vivi muitos anos em Lisboa. Estive cinco na faculdade e depois fiquei mais uns dez, por razões profissionais. E agora o meu trabalho mantém-se em Lisboa, embora eu só aí vá alguns dias durante a semana. Ou seja, consigo imaginar-me a viver em Lisboa, mas a verdade é que não gostaria que isso acontecesse.
Por quê a escolha de um dos capítulos para dar o título ao livro?
A aventura do javali pareceu-me a que tinha o título melhor, a par da do deputado das lebres. Mas o livro tem muitos animais, enquanto que deputados só existe mesmo aquele – que nem é um deputado completo, por lhe faltar um bocado da cabeça. Além disso, o javali sorri, como acontece depois com alguns dos outros animais, por exemplo com o lagarto. O livro é uma narrativa de várias aventuras de um miúdo, o pequeno Tukie. Logo ao princípio eu pensava que se chamaria qualquer coisa com aventuras, mas depois, ao surgirem as histórias, comecei a pensar dar-lhe o título de uma delas. E mantém-se a ideia das aventuras no subtítulo, que é «Primeiras aventuras do pequeno Tukie»; não quer dizer que eu venha a arranjar mais para ele, mas estas serão sempre as primeiras aventuras.
A dada altura fala na Rosa Montero. Gosta dos seus livros? E que outros autores costuma ler?
Eu não conheço muito bem a obra da Rosa Montero, apenas algumas coisas, como o facto de por vezes aparecerem anões, que é uma imagem deste livro, os anões neste caso ao contrário, gigantes capazes de com os seus enormes braços abarcarem o tronco de uma oliveira com muitos séculos. Lembro-me de que na altura em que escrevia essa aventura, a que mete uma cobra que acaba por morrer num estendal, havia uma pessoa que me tinha perguntado se eu gostava dos livros da Rosa Montero, porque andava a ler alguma coisa dela. Acho que foi por isso que acabei por falar dos anões. Quanto a autores que eu costume ler, há um número razoável, mas do que eu estou sempre à espera é de coisas novas dos meus heróis da literatura, o colombiano Santiago Gamboa, o espanhol Javier Cercas e o chileno Roberto Ampuero.
O deputado «quase sem cabeça» e a história das lebres extraterrestres… Como é que lhe surgiu essa ideia?
Já me aconteceram muitos episódios com lebres e coelhos, quando à noite vou a conduzir. Já cheguei a demorar meia-hora para fazer os últimos dois ou três quilómetros do percurso até casa, à noite, pelo montado, por se meterem lebres à frente do carro e depois ter de ir a vinte ou trinta à hora porque elas teimam em não abandonar as luzes. Por isso, num livro como este eu teria de ter algo assim. O pequeno Tukie vai uma noite com o pai fazer uma viagem, só para verem as lebres aos saltos à frente do carro. Às vezes, os escritores dizem aquelas coisas de o livro tomar conta deles, ou a história, de alguém escrever por eles, de haver uma mão invisível tipo Adam Smith só que da literatura em vez de ser da economia… Eu nunca fui muito disso, mas pensando nesta aventura com as lebres talvez o aparecimento do deputado a que falta um bocado da cabeça tenha sido algo parecido. A certa altura, num cruzamento onde muitas vezes à noite eu tenho de parar para olhar para um lado e para o outro para ver se mesmo sem sinais de luzes se aproxima algum carro, nas viagens do Algarve para Alentejo, a certa altura eu estava a escrever, estava a contar que o pai do pequeno Tukie ia a chegar ao cruzamento, já com o filho a dormir, e então apareceu o deputado, em viagem de Lisboa para Beja para fazer, como depois se descobre, trabalho político. Há várias lebres que passam das luzes do carro do pai do pequeno Tukie para as luzes do carro do deputado. Não sei, talvez os escritores da mão invisível que lhes escreve tudo tenham um bocadinho de razão. Nem que seja só um bocadinho, porque depois de o deputado aparecer quem teve de se arranjar para chegar ao fim da história fui eu com as minhas próprias mãos no teclado do computador.
Um aparte, em relação à literatura… sei que é do Sporting. Como explica a temporada dos leões?
O que aconteceu esta temporada só foi uma surpresa pelas situações caricatas que acabaram por juntar-se aos péssimos resultados. De resto, não aconteceu nada que não se esperasse, pelo desleixo, pelo desmazelo e pelo desinteresse que os dirigentes desde o princípio da época demonstraram, a começar pelo presidente, que nitidamente tem pouca competência para o cargo que ocupa. Via-se logo que as coisas não iam acabar bem, assim como para a nova época, com a mesma gente a mandar, é de prever que coisa boa não vai sair dali. Sinto um grande desgosto pelo que se passa no meu clube e o pior é que não vejo maneira de nos livrarmos desta gente.
E através do seu blog, «Floresta do Sul», percebi que tem um fascínio pelos insectos…
Há muitas fotografias de insectos no blog, mas também há de outros animais. Não sei se será fascínio, mas por vezes acabo por passar muito tempo só para conseguir uma fotografia de um deles. E chego a ter boas surpresas. Por exemplo, um ouriço-cacheiro que apanhei de noite a avançar para a máquina fotográfica, sem parar para se enrolar; foi a primeira vez que vi os olhos de um ouriço-cacheiro, na fotografia, porque todos até aí, sem falhar um, todos se tinham enrolado antes de eu lhes ver o focinho. Com os insectos já é diferente, as surpresas que tenho resultam de depois nas fotografias conseguir vê-los ao pormenor, os olhos, as patas, as asas… De qualquer forma, em relação a alguns insectos tenho por vezes a sensação de que falei há pouco, de quando era criança, a preocupação com as alclaras... Por exemplo, os que voam são incontroláveis, pela rapidez que têm, e há umas vespas enormes que me deixam bem preocupado quando as vejo por perto.
Voltando à escrita, já tem algum projecto em mãos?
Não tenho bem o que se pode chamar projectos, mas há coisas que vou escrevendo. Ando a escrever um romance há que tempos, mas para já não avança muito, e ando a escrever umas histórias, só que em vez de ser num montado como as das aventuras do pequeno Tukie, passam-se numa câmara municipal. Não sei se vou conseguir fazer o que tenho em mente, mas pode ser que consiga. Quanto ao romance, para já precisava mesmo era da ajuda de uma mão invisível. Mas vai ter de ser mesmo com as minhas, já sei.
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domingo, 30 de maio de 2010

Mais uma personagem

Mais uma personagem do livro, a rela.
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sábado, 29 de maio de 2010

Uma apresentação (Lisboa)

Texto de suporte da apresentação de Luís Carmelo, em Lisboa, na sessão de lançamento do livro (Livraria Bertrand do Chiado, 27.05.10); na foto, Luís Carmelo (ao centro), com o autor e Lúcia Pinho e Melo (da Quetzal), durante a intervenção.
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Um Livro de Horas do nosso tempo
Metamorfose e ambiguidade em «O Sorriso Enigmático do Javali», de António Manuel Venda

Por Luís Carmelo
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«O Sorriso Enigmático do Javali» é um livro sobre a intimidade. Laços chegados à experiência que torna a vida numa escola de pequenos gestos. O minúsculo toma muitas vezes conta da acção, também ela lida e relida através de um microcosmos caprichoso e ditado pela lei das muitas proximidades. Tudo nesta arena ficcional criada por António Manuel Venda é cúmplice, órgão com órgão, interrogando pistas, processos, revelações, o próprio sentido. O protagonista, um jovem baptizado cripticamente por «pequeno Tukie», é o elo fundamental do argumento e o núcleo aventuroso a partir de onde a narrativa constantemente se reinicia. O que acontece por uma dúzia de vezes, desde o primeiro dos incipits que cruza, de modo meteórico, o movimento de duas perdizes, a memória de uma garça, o olhar atento do protagonista e a terra da «Herdade do Convento», que se anuncia como geografia nevrálgica de todo o relato.
O pequeno Tukie testemunha, ao longo das doze estações deste ciclo ficcional, um conjunto de factos que resvalam, de modo súbito, de uma esfera normal e verosímil para uma outra, cuja identidade nunca se fecha ou declara. Aliás, é esse estado de metamorfose sempre em suspenso, ou de laboratório em contínua efabulação, que liga – repito intimamente – as doze histórias que compõem «O Sorriso Enigmático do Javali».
Existe realmente um pasmo de media res – um enredo que respira fundo sem que se lhe conheça início ou fim precisos – que atravessa todos estes relatos, cuja simetria assenta mais na alegoria dos propósitos do que na ficção narrativa propriamente dita, enquanto agir que tende para o abismo de um clímax. Um pouco como no «Émile», de Rousseau, embora elevado ao maravilhoso, o quadro geral desenha, na boca de cena, o pequeno Tukie e o pai e, junto ao pano de fundo, a bebé, a mãe e os cães. Como, aliás, se sintetiza no final da décima história em jeito de concatenação fotográfica.
Mas o que concede a singularidade a este livro de António Manuel Venda é o modo delicado e enraizado (nos elementos puros) com que é posta em prática a metamorfose em suspenso que vai moldando cada uma das doze histórias. Se levarmos a cabo uma visita guiada a estas viragens que nunca desocultam completamente o seu rosto e o seu molde, apercebemo-nos de que são variadas, quer pela natureza dos seus agentes, quer ainda pelo deslumbramento e pelas quase aparições que sugerem.
Tudo se inicia pelo mistério da garça e da fotografia, em «1. Depois das perdizes paradas (pp. 14/ 15), quando o que se vê e o que acontece se digladiam. Depois, é enunciada uma virtude nobre, o riso, que é imputada a um javali. Tal como na visão de Pirandello, a causa do riso parece estar no próprio motivo do riso. Ora leia-se: «Os dentes daquele javali, bem perigosos, parecendo afiados, dentes com restos de terra e ervas, esses dentes o pai do pequeno Tukie não sabia como classificar, mas esses dentes, junto com o focinho de javali, formavam uma espécie de sorriso.» («2. O sorriso enigmático do javali» – p. 21). Na terceira história, surge uma gineta que «tinha uma motosserra no estômago» prestes a explodir («3. Gina Gineta» – p. 31). Logo a seguir, em «4. A águia que subia» (pp. 42/ 43), aparece no céu uma bola ou bala de canhão que não passa afinal de uma águia. Tal como na quinta história, uma cobra aparece a voar como um gafanhoto ou um zangão («5. Uma cobra para três corvos» – p. 49). A meio do livro, há espaço para um deputado a quem falta uma parte da cabeça («6. O deputado das lebres extraterrestres» – pp. 58/ 59) e, também, para a quase ressurreição da gata Malhas («7. Talvez a segunda vida» – p. 69). Na oitava e na nona histórias, as intermitências tomam conta do relato. É a borboleta que se materializa e desmaterializa ao mesmo tempo, em «8. A borboleta do imperador Ming» (p. 71), e é o lagarto que aparece e desaparece e que – já agora – também ri como o javali (em «9. O lagarto da clave de sol» – p. 77 e p. 82). As duas histórias seguintes oscilam entre a magia e a singularidade. É o caso do ouriço «atrapalhado» que não se enrola diante do pequeno Tukie, em «10. Animal doméstico» (p. 87), e é o caso do texugo gordo que se comporta – imagine-se – como um cão, em «11. O texugo mais gordo do montado» (p. 90). A fechar, na décima segunda história, surge ainda a rã que não era rã, mas que podia ter sido rooter ou parceira musical do lagarto que tinha a mania que era importante («12. Uma rela» – p. 100).
Todo o relato coloca face a face o pequeno Tukie – e por vezes também a mãe – e o seu pai. É pois sobretudo à boca de cena que a interpretação de todo este milagre natural é expiado. Sob o olhar mais presente do que atento das personagens a quem foram confiadas as efígies do pano de fundo. Curiosamente, a figura da iniciação é quase sempre substituída por uma outra que não se confunde nem com a parábola, nem com a passividade de um preceptor à «Émile», de Rousseau. Em «O Sorriso Enigmático do Javali», de António Manuel Venda, é a ambiguidade das respostas do pai (ou ocasionalmente da mãe) e, por vezes, a própria aura do irrespondível que tomam conta da cena. Acaba por ser este o modo de a narrativa melhor relevar e até significar uma metamorfose que jamais se aclara e que jamais se consuma. A eficácia da ambiguidade criada é óbvia, já que é por causa dela que se cria, ao longo das doze histórias, um espaço – ininterruptamente aberto (é esse o nome do enigma que dá nome ao livro) – que acaba por ser povoado pelo sortilégio, pelo fascínio e pelo encantamento.
A ambiguidade é gerada de formas díspares. Ou adiando uma resposta clara, o que acontece, por exemplo, em «Gina gineta» («Ficaria para depois o esclarecimento daquela dúvida…») e em «Uma rela» («O pai do pequeno Tukie achou que não era altura de explicar que não se tratava de uma rã mas sim de uma rela.»). Ou referindo explicitamente o conforto de não ter que clarificar, como acontece em «A borboleta do imperador Ming»: «São mentirosos porque…/ Foi então que parou, decidido a não dar explicações que o mais certo seria originarem perguntas mais difíceis.» Ou ainda admitindo simples possibilidades; veja-se: «O pequeno Tukie insistiu, e o pai acabou por ceder um pouco. Se calhar o lagarto era deficiente, tinha nascido assim…» («O lagarto da clave de sol»). Por vezes, a ambiguidade decorre do cariz irrespondível que perpassa as situações, como é o caso de «O texugo mais gordo do montado» («– É um texugo, não é?!/ – perguntou o pequeno Tukie/ E a mãe disse que sim, hesitante. Ela já nem sabia bem.») e de «A águia que subia» («Sabes que pássaros são, mãe?/ A mãe disse-lhe que não, que iam tão alto que nem se atrevia a arriscar uma espécie.»). Outras vezes, a ambiguidade resulta do facto de se deixar simplesmente «no ar» o questionamento: «– Ri de quê?! – perguntou o pequeno Tukie./ Nem era uma pergunta para o pai, nem para o javali. Era apenas uma pergunta que deixava no ar.» («O sorriso enigmático do javali»).
Em todos estes casos, que devolvem abertura intencional ao «‘Porquê’ habitual» referido na penúltima linha do livro, uma certa imobilidade – nada altiva, sublinhe-se – assiste ao galopante vaivém entre o cosmorfismo e o antropomorfismo que constrói toda a malha discursiva. Em «Uma cobra para três corvos», quando o narrador regista – «E ele, o pai, devia dizer que não, com firmeza, mas tal como não conseguia mexer-se também não conseguia falar» –, mais do que precisar os perigos do hipnotismo de uma cobra, acaba sobretudo por definir o tom que celebra toda a estratégia narrativa de «O Sorriso Enigmático do Javali»: um ‘ser ou não ser’ terno, aberto à tentação do inverosímil, pautado pela inocência da dúvida e sustentado por um espaço de feitiço que vai entretendo a realidade como se esta tivesse a invisibilidade do mito.
Como se o casulo nunca se abrisse à borboleta e essa permanência extraordinária fosse a matéria de onde se teria extraído toda a ciência telúrica deste livro que, complementarmente, também escapa à definição de géneros. Romance? Contos? Novela fragmentária? Que interessa isso! Ao fim e ao cabo, trata-se da mesmíssima ambiguidade que se esconderá no gáudio – espero – do leitor, demasiado educado ao percorrer o coração das tramas e ao adicionar-lhes desenlaces que adora imaginar (e com os quais dá sentido à vida).
Concluamos com uma opinião pessoal. «O Sorriso Enigmático do Javali», de António Manuel Venda, é um «Livro de Horas» – como se designava na Idade Média o misto de iluminuras, salmos, orações e textos muito variados –, enunciando-se sadiamente liberto de referências pesadas, ungido de simplicidade e acabando por fundir ou confundir o relato com a liturgia da vida, ou não fosse boa parte do narrado, quase de certeza, de teor biográfico… Aparecendo o narrador pelo buraco da agulha um pouco mal escondido, aliás em coerência plena com a arquitectura da própria obra.

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segunda-feira, 24 de maio de 2010

Um pequeno texto

Pequeno texto de Fernando Sobral, publicado a 21.05.10 no suplemento «Weekend», do «Jornal de Negócios».
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Poucos escritores portugueses conseguem, como António Manuel Venda, encerrar a vulnerabilidade do mundo rural numa gaiola de palavras. As suas personagens dão-se mal com a urbanidade e por isso precisam dos grandes espaços que ainda não foram consumidos pelo betão e pela chamada modernidade. As histórias que aqui encontramos têm personagens idênticas, como o pequeno Tukie, mas o seu traço unificador é a paisagem onde animais nómadas se cruzam com pormenores a que já não se dá atenção nas grandes cidades. A beleza da escrita de António Manuel Venda radica na forma como consegue descrever estas pequenas dádivas da natureza, como se tudo fossem contos de embalar. Uma beleza em forma de livro.
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Sessão de lançamento do livro

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sexta-feira, 21 de maio de 2010

Um livro comprado na feira

Texto de Cristina de Carvalho, sobre «O Sorriso Enigmático do Javali», comprado na Feira do Livro de Lisboa (texto publicado aqui).
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Gostaria de ter estado no sábado [15.05.10] à tarde na Feira do Livro, no stand da Quetzal – estava lá António Manuel Venda. Queria cumprimentá-lo e comprar o seu novo livro. Mas não pude. Passei por lá mais tarde – foi mesmo pouco mais que uma passagem: estava frio. Fui directamente à Quetzal. Não, não sabiam se tinham o livro!
– Já está disponível online e deveria ser distribuído ontem nas livrarias – acrescentei.
– Só se for ali atrás, onde estão as novidades...
E estava, claro. A parede esquerda cheiinha de sorrisos, que é como quem diz, forrada com exemplares de «O Sorriso Enigmático do Javali. Um veio comigo.
Que agradável leitura! Que tranquilidade vivemos no montado, que inquietações partilhamos com o pequeno Tukie, de tão próximo nos sentarmos a seu lado. É uma imensa ternura pelo pequeno Tukie o que sentimos quando acaba por adormecer. Já a vínhamos experimentando desde o princípio, quando partilhamos a aventura e o espanto por detrás da objectiva da máquina fotográfica.
Deixemos descansar o pequeno Tukie, que ainda agora adormeceu. E a mãe e a bebé, que já dormiam antes de a rela vir dar corpo à última aventura.
Mas amanhã teremos de nos juntar ao pequeno Tukie.
Dizer baixinho o nome da gineta.
Acreditar que o lagarto sabe desenhar.
Guardar um exército numa borboleta colorida.
Queremos saber tudo. O javali parou ou curou-se da doideira?
Por que tem o deputado apenas uma parte da cabeça?
Por que é que os políticos são mentirosos?
Ah, e quem dera deixar todas as cobras no estendal!

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quarta-feira, 19 de maio de 2010

Uma das personagens

Uma das personagens do livro, o ouriço.
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terça-feira, 18 de maio de 2010

Um texto de António Souto

Texto de António Souto, outro dos primeiros leitores de «O Sorriso Enigmático do Javali».
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Um sorriso de encantar
Doze contos, tantos quantos os meses do ano. Assim se anuncia o recente livro de António Manuel Venda, «O Sorriso Enigmático do Javali» (Quetzal, 2010). Espécie de ciclo, um ciclo, numa progressão narrativa que por vezes não se inibe de recuperar, em estratégia de verosimilhança, informação de contos anteriores e até mesmo de obras publicadas. Contos que se traduzem em histórias dentro de uma história maior. Porventura a da escrita e de quem a escreve ou vai escrevendo.
O narrador sabe do que fala e dos que falam (gente ou não, animais ou não, que a flora e a fauna estão bem presentes e ganham vida). Um narrador que sabe como sonha uma criança, ou como lhe nascem os sonhos. Um narrador-pai, em suma, ou um narrador-autor(?).
Tukie, pequeno protagonista, tem uma irmã, bebé imperturbável, alheia ainda à natureza e à natureza das coisas; uma mãe que assoma nas narrativas como quem vem ao encontro das circunstâncias e vigia e socorre os filhotes de duvidosas ameaças; um pai que viaja bastante por força do trabalho que tem na capital mas que não perde pitada das proezas que se passam em derredor da casa.
Uma casa em pleno montado, uma casa acolhedora e protectora, porém aberta ao exterior e aos que nele habitam, os animais que vêm e vão, que por ali cirandam familiarizados.
Tukie cresce à solta, quase sempre ao lado do pai, sob o seu olhar atento, e enquanto cresce faz a aprendizagem da vida numa caminhada iniciática. Uma criança feliz com as descobertas do quotidiano, dos seus sólitos e insólitos casos, tudo num contar bonito e meigo roçando um realismo mágico, entre um maravilhoso e um fantástico pouco frequente na nossa literatura.
Poder-se-á dizer que este conjunto de contos (romance?) cativa qualquer leitor que se deixe envolver em cada um deles, sobretudo o leitor que conhece os mistérios da terra (ou que os queira desvendar um bocadinho), como num regresso à infância, a uma infância impregnada de momentos deliciosos de humor.
Dir-se-á, uma obra de encantar!
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segunda-feira, 17 de maio de 2010

Feira do Livro de Lisboa

Sábado, 15 de Maio de 2010.
Foto: Rui Rodrigues
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domingo, 16 de maio de 2010

Certamente um dos primeiros leitores

Recebido por e-mail no dia em que o livro foi para as livrarias (14.05.10), de um dos primeiros leitores de «O Sorriso Enigmático do Javali». Publico aqui o texto, após ter tido o consentimento do autor.
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Ontem reservei um exemplar de «O Sorriso Enigmático do Javali» na Bertrand do Rio Sul. E hoje, pelas dez horas – para me obrigar a fazer exercício –, fui até lá a pé. O centro comercial fica junto a uma localidade chamada Torre da Marinha, a mais de quatro quilómetros da minha casa.
Antes de falar sobre o livro, devo dizer que fiz questão de não ler qualquer excerto relacionado com o mesmo. Por isso, até ontem só conhecia a capa e só hoje conheci o conteúdo.
Quando abandonei a livraria, decidi beber uma água na esplanada (interior) dos restaurantes, que àquela hora estava quase deserta. Beber uma água e descansar um pouco as pernas, antes de palmilhar os restantes quatro quilómetros da jornada. E foi ali mesmo que li o primeiro conto – o das perdizes. E só agora, às cinco da tarde, consegui fechar o livro, muito devagar, de modo a não perturbar o sono do Tukie, embora com a quase certeza de que, um dia destes, voltarei a ter notícia de novas aventuras do petiz.
Que dizer sobre o livro?
Estou naquela situação de alguém que quer dizer tanta coisa mas que não sabe por onde começar. Todavia, para arrumar ideias, vou começar pela emoção, que é para mim o primeiro critério na apreciação de qualquer obra, isto é, o nível de emoção que ela consegue despertar. Emoção e identificação. A meu ver, se não há emoção não há arte. A julgar pelo que sinto, creio que a esmagadora maioria dos leitores se identificará com o Tukie e ligará as suas memórias de criança às aventuras deste pequeno herói.
De qualquer modo, este livro surpreendeu-me. Na realidade, eu estava à espera de um romance ou de uma novela. Apesar disso, encontro algumas coisas em comum com o anterior («Uma Noite com o Fogo»). Refiro-me não só à ligação à terra, à natureza, mas também à observação atenta, requisito indispensável a qualquer escritor. Tal como o anterior, este livro revela a capacidade de olhar para além da superfície das coisas e para perscrutar as emoções próprias e alheias. Este livro é o resultado inevitável do caldear das memórias do autor (o pai) com a sua capacidade para decifrar os espantos genuínos do filho.
A escrita flui bem e recorre de quando em vez ao suspense, embora os contos terminem, normalmente, numa atmosfera serena que se coaduna com o género.
Em resumo: gostei do tema, do tom e do estilo e bom seria que todas as escolas (pelo menos as do ensino básico) pudessem dispor de um ou dois exemplares nas suas bibliotecas; até porque – hoje em dia – são poucas as crianças dos meios urbanos que têm a felicidade de poder experimentar este tipo de vivências junto de quem as possa guiar no relacionamento com o mundo envolvente.
Manuel Ramalhete
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quarta-feira, 28 de abril de 2010

Feira do Livro de Lisboa

Sessão de autógrafos na Feira do Livro de Lisboa, Sábado, dia 15 de Maio, entre as 16H30 e as 18H00; deste novo livro «O Sorriso Enigmático do Javali» (que chega às livrarias a 14) e também do romance «Uma Noite com o Fogo» - stand da Quetzal.
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domingo, 25 de abril de 2010

Um excerto

O pai do pequeno Tukie tinha o tronco da oliveira quase limpo, estava já nos acertos finais, a cortar uns ramos mais pequenos e a retirar as folhas secas que se tinham acumulado nas saliências. Pensava em como iria começar a falar ao filho das histórias do tronco, e de repente deu com uns olhos fixados no seu rosto. Uns olhos pequeninos, e uma língua de fora, inquieta, uma língua pequenina como esses olhos. Uma cobra espreitava de dentro da saliência que o pai do pequeno Tukie se preparava para limpar. E as folhas secas que aí se acumulavam o mais certo seria ele ir tirá-las com as mãos. Pensar nisso causou-lhe um arrepio, pensar que ia lá colocar as mãos mesmo ao alcance da cobra, da sua boca pronta para morder. E se fosse uma das venenosas?
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sexta-feira, 23 de abril de 2010

A capa

Finalmente, a capa. Nas livrarias a partir de 14 de Maio.
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sábado, 20 de março de 2010

A propósito do Dia do Pai

Três excertos aqui e mais três aqui, a propósito do Dia do Pai.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Abertura

O livro começa assim:
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Junto à vedação da Herdade do Convento, bem perto de onde poucos dias antes tinha retirado dos bicos do arame farpado o corpo de uma garça, o pequeno Tukie viu duas perdizes atravessarem a estrada de terra. Não lhe tomaram medo e entraram tranquilas na herdade, quase a tocarem o primeiro dos arames da vedação. Ele lembrava-se bem de que a garça tinha perdido a vida no terceiro, a pouco mais de meio metro de altura.
Deixou de pedalar, assentou um pé na estrada de terra para equilibrar a bicicleta e ficou a observar as perdizes. «Se eu fosse caçador…», pensou. Nesse caso estaria numa posição privilegiada, só que ele não era caçador. Tirou a máquina fotográfica da mochila e apontou-a. As perdizes estavam calmas, sem as correrias de tantas vezes antes de voarem uns metros. O pai do pequeno Tukie costumava falar de uma mulher a quem chamavam a Perdizinha, uma mulher de tempos já passados. Tratavam-na assim porque era muito baixa, mas sobretudo por andar depressa. Uma mulher desembaraçada e pequenina, um verdadeiro contraste com outra desses tempos, a Pata Larga, forte, alta e sempre a gabar-se de que calçava o quarenta e três. A Pata Larga, tinha-lhe o pai contado, falava como se carregasse na boca dois torrões de terra, um de cada lado, quem sabe se por causa dos equilíbrios, embora ela não precisasse muito de equilíbrios, principalmente por causa dos pés alongados.
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domingo, 4 de outubro de 2009

O lugar das histórias


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Ainda antes do livro

Começa o blog, ainda com o livro a ser terminado. Para já, pode-se espreitar algumas coisas a partir daqui.
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